sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Se soubesse escrever

Claro que sim, gostava de escrever um livro, se soubesse escrever. Falaria por exemplo do senhor da biblioteca. Daquele senhor alto que empurra o carrinho cheio de livros, revistas e jornais científicos. Aquele que olha para mim com um meio sorriso e a quem eu não correspondo, porque não percebo se é um sorriso ou se é apenas um esgar, um trejeito de expressão, um default mode. Justifico-me na minha incerteza cobarde. O senhor que vive em silêncio, anda em silêncio, coloca os livros lentamente nos seus lugares e sorri aos utentes usuais da biblioteca, que raramente lhe sorriem de volta. Escreveria sobre ele, sobre pessoas como ele. Pessoas que vivem em silêncio. Que trabalham em solidão. Que me lembram o querido Sr. José do livro “Todos os Nomes” do Saramago.

Escreveria sobre aquela senhora do documentário “Reino Pacifico”, a que sente uma empatia especial pelos animais que sofrem, que com o seu amor inspira todos à sua volta, que chora ao contar sobre o borrego que não conseguiu salvar, que ri ao observar as galinhas depenadas e desajeitadas a darem os primeiros passos na liberdade, depois de serem salvas. Que conseguiu, com este seu amor, construir uma quinta para onde leva animais que resgata dos campos de concentração da industria alimentar. Aliás, nem só escreveria, se fosse homem pedia-a em casamento.

Ou então sobre o dono da mercearia da esquina, um local em vias de extinção. Escreveria sobre como ele me sorri, claramente, e eu sorrio de volta a cumprimentá-lo. Aquele senhor que, teimosamente, não se deixa vergar pelas grandes superfícies, nem pelos franchisings. Aquele que me deve rogar pragas por nunca lá ter posto os pés, apesar de o cumprimentar educadamente, porque não sabe que sou tímida e o meu alemão é um suplicio e que transpiro só de pensar em ter que manter uma conversa nessa língua. Aquele que põe banquinhos à porta da mercearia, para os velhotes se sentarem a conversar. O único que se preocupa com aquele senhor na cadeira de rodas, muito sujo e barba imunda, deixa-o ficar ao pé dos banquinhos, um senhor com um ar muito triste, olhos muito azuis que nos inspeccionam a alma quando passamos. Aquele que remodelou a sua lojinha, acrescentou-lhe uma vitrina, que fica à porta à espera de clientes, a olhar as pessoas. A ver-me a mim passar e nunca lá entrar. Até me dói a cabeça só de pensar nisto, imagine-se se escrevesse um livro.

Escreveria sobre pessoas como a Maria, tentaria entrar na cabeça delas, no vazio das suas vidas, na pequenez dos seus interesses, nos preconceitos que as inundam, nas contradições daqueles cérebros. Ai os chineses, ai os indianos, pretos credo socorro, ai que cheiro, ai o raio do cão, ai o raio do gato, ai aqueles cachorrinhos que lindoooss. As Danielle Steel e as Nora Roberts que enchem as suas prateleiras, as telenovelas que vêm, as telenovelas que fazem. O veneno doce que espalham.

13 comentários:

mãe preocupada disse...

A escrita não se "sabe". Trabalha-se, pratica-se, como qualquer outro exercício, como qualquer outro ofício. Não existe o dom da escrita, existe o dom de saber olhar, cheirar, tocar e ouvir as coisas. Sem isso, não há nada sobre o que escrever. O resto é mesmo isso: trabalho. :)

ecila disse...

mae preocupada, soa-me a esperanca, para quando me desformatar de escrever durante anos em inglês técnico :-D

ntozei disse...

Ah, eu adorei o texto! Senti-me conhecendo cada pessoa, porque aqui também tem um senhor da biblioteca, um senhor da merceria, com direito a banquinhos, velhinhos bebendo e tudo. Também tem uma senhora emotiva e bondosa que luta pelos animais. Também há uma Maria e também há uma Ecila. Escreva sobre tais pessoas conhecidas. Escreva no blog. Porque é legal ver por meio de seus olhos aqueles que se parecem com os que vejo pelos meus.

jellyfish disse...

I dare you to start a collection of stories. Really short stories. Like a documentation of little jewels of everyday life. The language is not important (Portuguese, German, English, it doesn't matter). There is one rule: it has to focus on a person.

I will, too. I had this idea of collecting window stories. Curious? You'll soon know more about it! :)))

ntozei disse...

Eu acharia o máximo essa coleção de histórias. Acrescento outra sugestão: uma coleção de diálogos. Acompanho uma blogueira que vez ou outra coloca pequenos diálogos (3 ou 4 linhas) que teve com alguém ou ouviu alguém tendo. Coisas que eu sempre pensei em fazer, mas acabo não fazendo...

ecila disse...

ntozei, muito obrigada. Há uma ecila por aí? uai, fiquei intrigada :-o

Muitos blogues publicam diálogos (alguns bastante cómicos). Já o fiz (algures), mas funciona melhor quando estou em Portugal. Aqui na Alemanha "I get lost in translation" ;-)

ntozei, entao e tu tens blogue? :-)

ecila disse...

jellyfish, window stories? You write wonderfully (in any language which is impressive), now I am very curious. :-)

ntozei disse...

Bom, conheço outras Ecilas, sim. Pessoas observadoras, que gostam de escrever e de compartilhar coisas legais =)

Não sabia que várias pessoas tinham esse gosto por diálogos. Mas só recentemente tenho acompanhado a blogosfera, pode ser por isso.

Eu já tive alguns blogs que só começaram. Acabo não levando nenhum adiante, mas tenho ideia de voltar a blogar. Quem sabe...

jellyfish disse...

Thank you, Ecila!

The following passage is proof of your talent:
"Daquele senhor alto que empurra o carrinho cheio de livros, revistas e jornais científicos. Aquele que olha para mim com um meio sorriso e a quem eu não correspondo, porque não percebo se é um sorriso ou se é apenas um esgar, um trejeito de expressão, um default mode." I love it!

Wait no longer!

ecila disse...

ntozei, vou esperar por esse futuro blog!

jellyfish, thank you :) you're becoming an expert in portuguese he he.

ntozei disse...

Oi Ecila, acabei me empolgando e refiz um blog mesmo. Tentarei manter atualizado. Visite quando quiser ;)

ntozei@wordpress.com

ntozei disse...

A gente fica mto tempo sem dormir e confunde @ e . rs

O blog é ntozei.wordpress.com

ecila disse...

ntozei, muito fixe (=legal), gostei bastante e já sou seguidora :-D