segunda-feira, 4 de abril de 2011

Nasci livre

Sem partidos políticos, sem clubes futebolísticos, sem irmandades, sem religião, sem clubes V.I.P.s, sem os chamados papéis sociais (que se deviam chamar discriminações sociais). A única coisa da qual não me pude livrar à nascença foi da genética parental. Ainda que procure combatê-la quando dela tenho consciência, a genética é a verdadeira prisão. Tive a sorte de ter uma educação muito livre, nunca me foi imposto nenhum partido, nenhuma religião, nenhum clube, nem nenhuma irmandade. Fui sempre incentivada a pensar por mim e fi-lo o mais que pude, embora, obviamente, como complexas esponjas cerebrais que somos, absorvi ideias que me rodeavam (mesmo as que não vinham dos meus pais, o que na adolescência dá inicio à turbulenta emancipação). Mesmo assim, continuei livre o mais que me foi possível. Fui moldada pela cultura, pela imposição dos tais papéis sociais (uma adquirida injusta dor de cabeça), pela televisão (o instrumento excelência da propaganda, ou não vivesse eu em Portugal. Pelo menos, na casa de banho consigo ouvir os meus pensamentos – em breve, alguém se lembrará de pôr pequenos ecrãs nas portas em frente às sanitas), mas tudo isto a um nível mínimo quando comparando com a maioria das pessoas que conheço.

Durante toda a minha vida adulta tenho sido incrivelmente pressionada a categorizar os meus pensamentos e acções, a comportar-me de acordo com expectativas sociais ridículas, a pensar como os rebanhos, a aceitar sem questionar, a aprisionar-me àquilo de que era livre à nascença.

Todas estas coisas que a maioria considera como parte dos humanos não o são. São-no porque nos são impostas a ferro e fogo, em alguns locais metaforicamente, noutros literalmente. Vêm, não esqueçam, da história cultural humana. Quase tudo inventado, invenções em cima de invenções, com base em interesses de quem as inventou.

Acho estranho – tal e qual como se fosse marciana – quando vejo pessoas a agredirem-se porque um é do Benfica e o outro do Sporting, ou quando patologicamente acreditam que o seu sangue é azul e não vermelho (sério que isto devia entrar para os sintomas de diagnóstico de esquizofrenia... espera… sim! faz parte dos critérios de diagnóstico), quando passam uma vida a tentar encaixar em papéis sociais que apenas os inferiorizam e prejudicam (inteligente seria tentar encaixar em papéis que os superiorizam, mas enfim), quando alguém se recusa a pensar por si para poder pertencer ao tal clube, religião, irmandade (embora isto até possa ser uma jogada espertinha. Em Portugal é o que mais abre portas, mais do que qualquer outro critério). Espanta-me como o poder corrompe e como as pessoas se esquecem da morte e acreditam que são eternas.

Nasci livre e fui durante muito tempo livre e extremamente feliz, alheia a todos estas diferenciações inventadas pelas patologias humanas. Faço um esforço grande para, cada vez mais, ser livre e feliz. Sou, no entanto, sortuda, pois tenho uma tendência para a felicidade, graças à liberdade que me foi dada na infância. 

Felicidade é aquele conceito abstracto que os humanos adoram, amam divagar sobre. E como humana que sou cá vai a minha divagação: felicidade anda de braço dado com a liberdade. Quanto mais livre, mais feliz. Seja uma liberdade interior, vinda talvez da simplicidade, até por vezes da ignorância (que não é nada santa, apenas apaziguadora de espírito), ou vinda de uma liberdade de conceitos, de quebra com o que é suposto para dar lugar ao que verdadeiramente é, vinda do conhecimento da verdade, dessa sede contínua. Seja uma liberdade exterior, poder agir, poder andar livremente na rua, nos campos, sem amarras e sem medo (não ter medo é das maiores liberdades). Os meios de comunicação social investem em induzir medo nas pessoas, pois este é, como todos sabemos, a melhor forma de manipular opiniões. 

É só para dizer (pois algures já me perdi e vocês também) que não há clubes (“it’s all in you head”). Que gostava de ver mais estudos científicos para provar falta de diferenças (pois). Não há amarras bizarras que não sejam as cerebrais e as genéticas (já por si bizarras o suficiente). Tudo o resto é miragem.

3 comentários:

mãe preocupada disse...

Muito bom! Infelizmente, não creio que se possa mais ser livre com a forma como a sociedade está organizada. Sobretudo porque a liberdade é aniquilidada de formas tão subtis que as pessoas se rendem sem dar por ela.
Obrigada.

ntozei disse...

É bom quando se tem tendência à felicidade!! Alguém pesquisou no meu blog a expressão "montão de felicidades" hoje e eu até pensei que daria um melhor título do que "montão de coisas". No mínimo, um bom título a post.

ecila disse...

mae preocupada, muito obrigada :) Por a liberdade ser aniquilada de formas subtis é que as pessoas precisam acordar, acordar o espirito e a capacidade de pensamento critico, comecando por quebrar amarras. Já agora, gostei muito do ultimo post, Verdades Inconvenientes. É mesmo esse o problema. Muito muito bom :)

ntozei, sei que tenho a sorte de ter tendência à felicidade. É mesmo sorte. Sorte de ter tido uma infância tao livre e feliz. Montao de Felicidades é um excelente titulo! Ora cá está uma coisa que nunca é demais, quanto mais felicidade, melhor :-D