domingo, 30 de agosto de 2009

E ela contou-me as suas experiências durante a guerra

Os russos são a destruição. Primeiro vieram os americanos, eram simpáticos, davam doces às crianças, punham-nas nos tanques, riam. Também se metiam com as raparigas, claro. Eram soldados. Mas nada de demasiado desrespeito, diziam piropos. Berlim era russo. Todo russo. E então, Berlim foi negociado, metade de Berlim em troca de algumas cidades americanas. Foi assim que os americanos nos abandonaram. Vimos-los ir embora com o coração nas mãos. Ninguém queria os russos. Os russos eram a destruição. Nós tínhamos um conjunto de turcos para a casa-de-banho, algo daquele tempo, sobreviveu à guerra e era um dos poucos valores que possuíamos, muito bonito. Quando eles entraram em casa - eles foram a todas as casas - despedaçaram esse conjunto de turcos aos pedacinhos com as baionetas. Mas porquê? perguntei. Com o propósito de destruir. Apenas isso. Quando foram (invadiram) a casa de uma amiga nossa, ficaram embasbacados com a casa-de-banho, lavaram a cara na sanita, não sabiam para que é que servia. Não podíamos tocar musica, porque eles vinham e levavam todos os instrumentos musicais, todos os pianos foram levados. Deixámos de tocar e ouvir musica. Certa vez, mandada pela minha mãe, ia eu com uma amiga buscar legumes, que chegavam uma vez por semana de Dresden, quando fomos perseguidas por soldados russos. Eram brutos e cruéis. As mulheres eram espezinháveis, as mulheres alemãs eram todas para serem insultadas, agredidas. Estávamos em apuros. Tivemos a sorte de um homem forte se aproximar de nós, de nos abraçar e dizer "minhas filhas onde é que andavam? Já para casa!" e empurrou-nos para dentro da sua casa. Escapámos por um triz. Muitas não tiveram a nossa sorte. A minha mãe dizia-me para andar sempre com as chaves entre os dedos e para acertar certeira entre as pernas. Odeio os russos. Os russos foram a destruição. As gerações seguintes não querem ouvir as nossas historias, acham que éramos todos nazis. Não éramos, não tínhamos escolha, vivíamos no terror de uma ditadura. Não falávamos, as pessoas tinham medo. E depois passámos a viver no terror dos russos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Acima de tudo

Gosto de pessoas com boa auto-estima (ser convencido revela-me o oposto).
Gosto de blogs de pessoas fortes que não se deixam ofender por ninharias.
Gosto de pessoas de mente aberta (pessoas preconceituosas são irritantes).
Acredito que a educação e a genética são mais influenciáveis na estrutura de uma pessoa do que factores exteriores.
Acredito que, ah destino injusto, falhando a educação e não tendo a genética para ajudar, os factores exteriores são absorvidos tipo esponja, sem filtro, o que leva a patologias graves da sociedade.
Acredito mais nas igualdades do que nas diferenças.
Acredito na influência da cultura na personalidade.
Gosto de rir.
Ler faz parte do meu corpo, sem livros tenho uma duração limitada.
Amo o Alentejo, esteja onde estiver no mundo.
Respeito os animais, mais do que muitas pessoas que tive a oportunidade (e não sorte) de conhecer.
Respeito a natureza e o contrário chamo de egoísmo.
A verdade, não o politicamente correcto, não as categorias em que se metem as pessoas pelas aparências, não as frases propaganda, não as etiquetas que colam na verdade para a disfarçar de mentira, ou as etiquetas que colam na mentira para a disfarçar de verdade.
A verdade é a minha religião, mas não o meu Deus, há que saber distinguir.
Há que saber distinguir.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desligado(s)

Tenho um amigo alemão que me diz que nunca está a par das noticias, nem do que se passa no mundo. Ele trabalha na media e perguntei-lhe se essa seria a razão, pois calculei que se poderia fartar de trazer o trabalho para a sua vida pessoal. Também já conheceu vários presidentes norte-americanos, várias celebridades, viu-os a todos por trás do tube-tv, pensei também que poderia ser por saber algo que eu não sei (eu queria era cusquices). Ele respondeu-me que há uns anos teve que estar muito informado sobre o que se passava no mundo 30 anos antes. Teve que ler todas as noticias, as entrevistas politicas, estar a par das celebridades, ver reportagens, enfim, informar-se de tal forma, quase como se estivesse a viver naquele tempo. E aconteceu uma coisa extraordinária. Deu-se conta que a história, excepto alguns detalhes e nomes que mudavam, era a mesma que hoje. As palavras eram as mesmas, os políticos os mesmos, as guerras, as desculpas, e as frases também. E disse-me que, a partir dessa altura, deixou de ler noticias (claro que não tem televisão, mas a maioria dos meus amigos alemães não tem televisão, logo nada mais comum). E vive assim. Fora do mundo. Ou seremos nós que vivemos fora do mundo?

domingo, 16 de agosto de 2009

Riso diário


Li numa revista alemã que a média de riso por pessoa na Alemanha é de 6 minutos diários, enquanto que em Portugal é de 18 minutos. O que me admirou - não o facto de viver num país em que as pessoas riem apenas 6 minutos por dia - foi darem o exemplo de Portugal e de mais nenhum outro país. Porque não deram como exemplo oposto à Alemanha, a Espanha, Itália, Grécia ou França? Seremos o povo que mais ri na Europa?


Adenda: Agradeço à Maria Rita pelo envio de fontes universitárias (nos comentários) que citam o estudo acima (muito obrigada Maria Rita!). Assim que consiga o estudo original (se existir), ainda que seja uma publicação alemã, disponibilizo o respectivo link.

Segundo a fonte citada (em alemão), os portugueses são, de facto, os líderes do riso na Europa (com os tais 18 minutos diários), as mulheres riem em média duas vezes mais do que os homens e as crianças riem em média até 10 vezes mais do que os adultos.

Quem é S?






























I don't want to be taken for granted

What's so deliquent about expressing yourself?

-S-

... É alguém que anda a espalhar a alma pelas ruas da cidade.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para quem gosta de vampiros



True Blood está de volta (season 2) e eu quase nem dei por isso. Sim, uma grande falha minha. A abertura (música, trailer) desta série é, digamos, uma obra de arte. Acho que uma das poucas coisas boas no facto de existir televisão é que, de vez em quando, fazem séries que valem a pena. Embora eu veja o que quero ver (sem me enfiarem pelos olhos e ouvidos acima, coisas que não interessam a ninguém e que só servem para esvaziar o cérebro aos poucos) na net ou em DVD. Nem sempre as seasons que se seguem acompanham a qualidade das primeiras, mas estou em pulgas para verificar isso pessoalmente. De preferência com projector, pipocas e boa companhia. Vampiros!!!!

domingo, 9 de agosto de 2009

Idolos no Afeganistão

O documentário Afghan Star, vencedor do Sundance Festival 2009, acompanha o percurso de quatro concorrentes do programa Idolos no Afeganistão. Os participantes arriscam-se a serem assassinados pelos Taliban, pois cantar e dançar em publico transgride as leis islâmicas. A pedido do governo Afegão, um conselho Islâmico chega à resolução que não poderá haver mais danças na televisão, em sequência de danças efectuadas por concorrentes no programa. Felizmente os quatro concorrentes sobreviveram, mas o apresentador/produtor optou, mais tarde, por fugir para os EUA. Votar pelo concorrente preferido corresponde a um pequeno vislumbre de democracia que transcende os conflitos etnicos do povo afegão. Talvez a música lhes traga mesmo a liberdade.


"...once the Taliban were pushed out, a company called Tolo TV and a young producer named Daoud Sediqi, who repaired illegal TVs in secret during the Taliban years, came up with the idea for an "Afghan Star" television show in order to "move people from the gun to music.""

sábado, 8 de agosto de 2009

Sorriso Solnado

O Raúl Solnado sempre me fez sorrir automaticamente. Bastava a sua presença e já os cantos da minha boca subiam para cima sem eu dar por isso. Transmitia uma incrível energia positiva e tinha aquela caracteristica rara dos olhos sorriso. Adoro olhos sorriso. Descansa em paz querido Raúl.



Tomei um táxi e fui para a guerra. Cheguei à guerra eram 7h da manhã, estava a guerra ainda fechada (...) bem, almocei no inimigo (...)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

E é assim

Enquanto os meus amigos e família se deleitam com a praia e enviam-me sms a dizer que estão na minha praia preferida ou na deles, eu preparo-me para ir ao lago, fechar os olhos, fingir que a água é salgada, que o lodo é areia, que os patos e cisnes são gaivotas. Que o café do lago vende tostas maravilhosas, sumos naturais, peixe grelhado, em vez de batatas fritas das congeladas com molhos e cerveja. Que não estou a fazer amigos novos pela milésima vez, porque todos se vão embora, que aqui nada fica (a não ser eu). Que existe Verão quando o que existe são uns dias esporádicos de sol em que todos parecemos sofrer de ADHD a fazer todo o possível para aproveitar os minutos preciosos de calor, até ao ultimo segundo do dia.

Mas o outro dia vi passar mesmo em frente aos meus olhos, ao fim da tarde, um bando enorme de patos selvagens, a voar rasinho ao lago, uma visão típica National Geographic. Até esfreguei os olhos. Também adoro usar a bicicleta para ir a todo o lado. Se algum dia voltar a Portugal é do que vou sentir mais falta. E sei que, então, vou fechar os olhos e fingir que ando de bicicleta, que o vento bate na minha cara, que sinto esta liberdade de movimento, que não preciso de carro para ir ao supermercado da rua acima. E também vou fingir que não ouço a televisão a perseguir-me por tudo o que é sitio, em todos os cafés, restaurantes, divisões da casa, estações de metro e quiçá transportes públicos. Fingir que essa praga que cobre Portugal é apenas "white noise", que não envenena a cabeça das pessoas nos mais pequenos detalhes das suas vidas. Sempre tive uma imaginação prodigiosa, que me salva de muitas reuniões intermináveis. Uso-a habilmente em todo o lado.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Nascidos a 2 de Agosto

Vou ficar aqui à espera que alguém encarne o José Afonso - caso acreditasse na encarnação e se há crenças que não percebo essa é uma delas -, porque faz mesmo falta alguém agitar a malta.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Até parece non-sense

Que ainda não se tenha aqui mencionado a Alice, o Lewis Carroll ou o Tim Burton. Quando eles constituem uns bons 30% da minha cabeça (os restantes 70% vão para o Johnny Depp).

terça-feira, 28 de julho de 2009

O tempo faz oficialmente parte das conversas

Dizem que aqui há as quatro estações. É mentira. Aqui há apenas três. Primavera, Outono e Inverno. Prefiro mil vezes (um milhão de vezes, um trilião) um longo Verão. Ou pelo menos ,um mês inteiro de bom tempo. Apesar de não estar em Inglaterra entendo agora o habito dos ingleses de falar do tempo. Nunca dei por mim a falar do tempo. Agora o tempo faz parte do meu diálogo, faz parte do meu pensamento, faz parte do meu olhar que revista o céu em busca de sinais de sol. Sou capaz de construir um diálogo inteiro só sobre o tempo.

O outro dia questionava com amigos, mas será que dá para irmos caminhar? Como isto anda, arriscamo-nos a levar com uma chuvada em cima. Não, não, li que no Domingo vai estar bom tempo. O outro dia também disseram isso e depois cheguei encharcada ao trabalho. Mas de tarde já estava melhor, não estava? Mas à noite fez mais uma trovoada. É melhor não irmos, olha isto já está com ar de chuva, vamos para dentro. Já vos tinha dito que isto foi um diálogo de Verão?

domingo, 19 de julho de 2009

Khoda

Khoda from Reza Dolatabadi on Vimeo.


Para fazer este vídeo foram necessárias mais de 6000 pinturas. Com o objectivo de cada vez que fizermos pausa no vídeo depararmos com uma pintura. Dois anos de trabalho para cinco minutos de filme. O resultado é esta maravilha visual.

sábado, 18 de julho de 2009

Brüno gay TV



Só para avisar, isto NÃO é um cheirinho do filme Brüno...

E mais não digo




O que dizer do filme Brüno... bem... enquanto o meu cérebro gritava "Oh Céus! Nem pensar! Não acredito! Credo! Belhaqueeee!" e fechava os meus olhos espontâneamente, tal como nos filmes de terror... da minha boca saiam sonoras gargalhadas!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Vamos chamá-las barbies"

"O livre segredo de toda a mídia - escrita ou audiovisual - é a sua dependência total da publicidade. Este facto é a causa do claro conflito entre o bem-estar do publico e o interesse das corporações empresariais: se a Lancôme, Dior, e La Praire pagam por anúncios de tratamentos anti-rugas (injeões ou cremes), pode uma revista dar-se ao luxo de retratar fotos não modificadas (por photoshop) de mulheres bonitas, confiantes, seguras, acima da idade dos quarenta? A resposta é: não. "
Elena Rossini, responsável pelo projecto The Illusionists
(tradução minha do texto original em inglês)




(video de Naomi Wolf, autora dos livros "The Beauty Myth" e "The end of America")

Os estrangeiros fazem perguntas estranhas

Mas o que eu já me ri com este texto do Miguel Sousa Tavares (dica do Jedi), não sei se tenho que pedir desculpa a alguém (aos portugueses, eu incluída), mas o que eu me ri com isto (ainda estou a rir). Acho que vou traduzir e distribuir a amigos estrangeiros sempre que eles me perguntam questões complicadas, aquando as suas visitas a Portugal.

(e só não o ponho na categoria "adoro esta inteligência" porque o acho machista, caracteristica muito pouco inteligente nos dias de hoje - estreia assim a categoria Portugal)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Fadas do bosque

Passear de bicicleta ao anoitecer de um dia quente na Alemanha, tem a sua aura de magia. Ao longo do parque vemos, devagarinho, à medida que a noite cai, entes luminosos por entre as árvores, saindo de flores, pairando o lago, subindo aos céus. De repente, tudo ao nosso lado está rodeado destas fadas intermitentes. Dançam no ar, brincam às escondidas no bosque. Voam à frente da bicicleta e misturam-se com aqueles que saem do caminho. Já não sei se estou a voar também, um efeito esplêndido de ilusão. Sorrio no escuro ponteado de luzinhas. Isto até me dar conta que o chão tem uns seres aos pulinhos, pequeninos e escuros. Tenho que pôr a luz na bicicleta, senão ainda esmago algum. Com a luz chega a realidade. Os momentos de magia são sempre assim, bons e curtos. Os pirilampos fogem para a floresta e eu desvio-me cautelosamente das rãs pequeninas (ou serão sapos). Já não voo, agora pedalo aos ziguezagues. Mesmo assim, o sentimento de ilusão continua, e com sorte, vou fechar os olhos e adormecer no mundo das fadas. Até a luz chegar.

("Hotaru-gari I", pintura de Robin Street-Morris, aqui)

sábado, 27 de junho de 2009

Deixa-me entrar















O filme "Let the right one in" é o melhor filme de vampiros de sempre. É... único. Belo. Violento. Calmo. Perturbador. Profundo.

De uma perfeição daquelas que são tão raras de encontrar, como na literatura. Daquelas que sabemos que não vão existir substitutos, como nas pessoas. Daquelas que pensamos, depois disto, não há mais nada.

Perfeito.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Campeão da física em liberdade

Beni foi libertado na floresta, depois do período de tempo que passou no santuário Lola ya Bonobo, do qual já falei antes. Tenho acompanhado no blog a libertação dos primeiros bonobos, uma grande vitória do santuário, que se dedica à reabilitação de bonobos resgatados das mãos de caçadores ilegais. Beni passou há uns tempos um teste que avalia as capacidades dos primatas em compreender as leis da física (coisa nada fácil). O teste de "alcançar janelas" avalia a capacidade de se entender a lei da causalidade. Consiste em pôr uma banana em frente a uma janela e verificar se o primata percebe que, para a alcançar sem a fazer cair, terá que abrir outra janela, senão a banana cai para o chão. O Beni é o primata campeão deste teste, ultrapassando resultados de vários primatas testados pelo mundo fora. Podem ver o vídeo aqui.

E foi hoje posto em liberdade, onde será monitorizado por especialistas na sua adaptação ao novo lar. Acho que o Beni vai ser um bom acréscimo ao primeiro grupo de bonobos a experimentar a vida na selva, nada como ter um colega que entenda de física (falo por experiência própria).

Em paz



Estranho isto das saudades...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Já posso adormecer

Pronto. Ficou tudo adiado. Menos mal. Melhor adiado do que compromissos politicamente correctos (leia-se fracos em valores).

«As baleias são mais valiosas vivas do que mortas e os benefícios económicos estendem-se para além da caça», afirma Peter Garret, ministro do Ambiente da Austrália.

Pois. Todos sabemos que nestas coisas do obviamente errado, não basta saber que é errado, tem que se encontrar razões económicas.

Boa noite, que a dor de cabeça já passou.

A dor de cabeça está pior

"A World Society for the Protection of Animals (WSPA) está também presente neste encontro e protesta contra o segundo pedido da Dinamarca (idêntico pedido foi formulado em 2008 tendo, então, sido rejeitado com 36 contra e 29 a favor) para atribuição de uma quota de captura de dez baleias corcundas nas costas da Gronelândia ao abrigo do programa de apoio às populações aborígenes.

A WSPA denuncia que, após investigações levadas a cabo na Gronelândia, as ditas "capturas de subsistência" acabam por serem processadas numa fábrica em Maniitsoq e têm como destino final 100 supermercados locais.

A Whale and Dolphin Conservation Society (WDCS) denuncia também a pretensão da Dinamarca e lembra que a baleia corcunda é uma espécie protegida da caça comercial desde 1966 pelo que apela aos países da União Europeia para rejeitarem, em bloco, este pedido."

Mas temos que ter de tudo nos supermercados? Temos que ter tudo o que queremos à disposição? Vamos morrer de fome sem carne de baleia? Mas estará tudo louco? E somos representados por quem mesmo, o tal do compromisso (leia-se lambe-botismo)? Ah, chama-se Francisco Nunes Correia, engenheiro civil (!?!).

Dores de cabeça

Custa-me que não se veja o óbvio, e normalmente quem não vê o óbvio é quem nasceu dentro do problema e logo não o vê como um problema, mas sim como normal. É assim que as maiores atrocidades, torturas e violações dos direitos humanos e animais acontecem. Com o consentimento e a defesa de pessoas que nasceram rodeadas desse ambiente e logo acham-no normal. É por exemplo muito mais fácil de identificar os problemas de um país quando saímos desse país. Pois quando vivemos nele, a maioria das coisas nem pomos em questão (e até defendemos), porque sempre foi assim. O mesmo se passa quando chegamos a outro país e identificamos logo problemas que os locais nunca tinham reparado ou pensado nisso. E por muito que me custe que não se veja o óbvio, claro que eu, também não o vejo muitas vezes. Não sou a excepção divina.

Mas depois temos aquele óbvio que é tão linear que até me dá dores de cabeça. Há duas questões que me parecem obviamente erradas. A tourada e a caça à baleia e ao tubarão. Muitas outras o são também, mas estas andam sempre na ordem dos assuntos discutidos por todo o lado. Todos os argumentos a favor destes actos soam-me a justificações para se fazerem coisas que se sabem ser erradas. Desde criança que me angustiava ver as chamadas picadas, garraiadas e touradas. A família, principalmente os homens, tentava sempre pôr-me a rir, minimizam a coisa, diziam que o touro até se divertia. Já isso me soava a que algo errado se passava. A necessidade de minimizarem a coisa, de me distraírem, já me dava nas entranhas a sensação de que a minha angustia não era despropositada. Podemos dizer que nos estamos nas tintas para o sofrimento animal, acho isso mais honesto. Por exemplo, tenho uma amiga que me dizia que não quer mesmo saber dos animais, nem do seu sofrimento. Ela dizia-me que os animais existem para nos servirem. E eu achava isso mais honesto. Não se punha cá com tretas de justificações para parecer melhor pessoa. Também pôs na cabeça comprar um casaco de peles (agora fazem de pele de coelho que é para o pessoal pensar que está tudo a ser aproveitado). Eu só lhe disse "não contes comigo para andar contigo na rua". Estava a falar muito a sério e ela optou por não comprar. Ela também me dizia sempre, que sabia que era egoísta e que pensava nela primeiro que tudo. Pronto, honestidade. Opções honestas. Tenho amigas que me dizem que entendem que eu não goste de touradas, mas que elas gostam porque gostam do ambiente, nasceram naquilo. Embora concordem que se tortura os animais. Dizer que se gosta de touradas porque se gosta mais da festa, do que do touro, é honesto. Não se ponham é com teorias inventadas para apaziguar o que é óbvio. Na tourada tortura-se os animais e esta é a verdade. Podem chamar-lhe festa, tradição, desporto. Chame-se o que se quiser. Porque a tradução é tortura em prol do divertimento e da vaidade humana.

O Japão arranjou uma destas belas desculpas para andar a fazer aquilo que todos sabemos que é errado. Matam baleias e chamam-lhe investigação. Depois a carne é vendida nos supermercados. Não há indícios significativos dos resultados da suposta investigação e a comunidade cientifica anda chateada com isto. Mas o lobbie é grande. Assim como o lobbie da tourada. O dinheiro chama mais alto e pronto. É ver reuniões internacionais sobre como arranjar justificações que apaziguem os ânimos daqueles que sabem que se está a cometer crimes graves.

Ontem no Publico online lia-se a noticia de que o ministro do ambiente, que eu nem sabia quem era (agora fiquei a saber que é mais um lambe-botas, como tantos dos nossos políticos portugueses), quer arranjar um compromisso de admitir a caça à baleia caso se exija um reforço de medidas de conservação e redução da caça. Ora, isto não é só a mim que parece um paradoxo. O que me chateiam são estes compromissos da treta à custa dos outros, que neste caso leia-se à custa das baleias. Mas será que as noticias recentes (semana passada) e graves de o aquecimento global ser muito pior do que se imagina só chegaram a alguns? Será que a noticia de que a caça à baleia disfarçada de ciência não passar de um embuste, também só chegaram a alguns? Será que o egoísmo cego e o lambe-botismo atingiu já limites patológicos tão graves? Eu sei que só não se pode dizer que se estão a marimbar para a tortura animal ou espécies em perigo, porque isso daria logo justificações boas para se combaterem estas questões em termos legais, ao nível de tribunais internacionais. Logo, lá andam eles a fazer reuniões para arranjar desculpas que soem a aceitáveis e lhes poupem chatices e pesos na consciência. Que tal focarem-se na resolução de problemas existentes e eminentes em vez de os criarem? Olhem, em vez de andarmos para a frente, se calhar o melhor mesmo, é voltar a instituir a pena capital, assim já podemos dizer que assumimos querer voltar a ser uma sociedade da idade média, pouco esclarecida e insensível aos direitos e ao sofrimento do que nos rodeia. Recuem no tempo e façam já tudo de uma vez. Nem sempre o que é errado é questionável, e o que é obviamente errado dá-me dores de cabeça.

(imagem daqui)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Medusa verde



Não sei o que são, mas gosto. Para mim, é arte.

Palavras que o vento não leva

Para os que são fãs do George Orwell (e também para os outros - como é possivel?) descobri este link onde se podem ler as suas obras online. Não é para substituir os livros, pois esses tenho-os preciosamente guardados e lidos e são tesouros da minha pequena biblioteca. É mesmo porque, por vezes, dá jeito ter as suas palavras ao alcance de um clique.

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domingo, 21 de junho de 2009

Colmeia chinesa


(tirei esta foto em Hong Kong)

TURN THEM OFF

"Right now, there is a whole, an entire generation that never knew anything that didn't come out of this tube. This tube is the gospel, the ultimate revelation; this tube can make or break presidents, popes, prime ministers; this tube is the most awesome goddamn propaganda force in the whole godless world, and woe is us if it ever falls into the hands of the wrong people (...)"

O filme Network é um dos filmes mais poderosos de sempre. Tem um script tão bom que até é difícil de acreditar que não seja um livro. Li na wiki que em 2006 o script do Netwotk foi votado como um dos melhores scripts de sempre pelo The Writers Guild of America. Não é dos filmes que mais passam na TV, vá-se lá saber porquê (estou a ironizar é claro, depois de o verem sabem logo porquê). Foi feito em 1976, e isso, para mim, também é estranho, pois Portugal acabava de dar os primeiros passos na liberdade e soa-me a uma época em que a TV ainda não tinha um peso muito grande na vida das pessoas. Mas devo estar enganada, porque este filme podia ter sido feito agora em 2009. A sua actualidade é impressionante. Mais do que impressionante, acho mesmo que este filme foi feito em 1976 para ser visto em 2009. Para Portugal deve ser dos filmes mais indispensáveis do momento. Deixo-vos o link onde o podem ver na integra (em inglês e sem legendas) e abaixo fica uma das minhas cenas preferidas (reparem na imagem dos candeeiros em série, muito, mas mesmo muito bom).



segunda-feira, 15 de junho de 2009

Vento e água


Hong Kong oferece aos turistas aulas e visitas guiadas grátis que nos ajudem a conhecer melhor a cultura chinesa. Hoje tive uma aula de Feng Shui. Não sabia o que era (para ser sincera) e agora que já sei, percebi que tenho que comprar uma bússola. Convém que este ano, a cabeceira da cama não esteja virada para norte, porque isso poderá trazer todo o tipo de desastres (mesmo tudo de mau que se possa imaginar!).

O pior é que as regras mudam todos os anos a partir do dia 4 de Fevereiro, mas como o professor concluiu no final da aula que éramos já mestres de Feng Shui (aquilo foi rápido) não vai ser difícil de reorganizar a casa. Se for, ele disse-nos que em ultimo caso mudamos de casa (ora bem). Pronto, eu mestre de Feng Shui (not) agora só tenho que arranjar a bússola.

(imagem daqui)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Agora que eu estava a ficar mal (bem) habituada

Hoje deparei com a primeira pessoa chinesa não simpática. Oh pá, fiquei logo indignada. Então o que é isto? Uma pessoa habitua-se mal e depois fica chateada quando há um que não corresponde às expectativas, ai, ai. Comentário do alemão que estava comigo "se calhar ela é mais esperta". O meu comentário "ena, isso é mesmo uma coisa muito alemã para se dizer". Para quem não sabe, o acto de rir, na Alemanha, era considerado em tempos, sinal de pouca inteligência (e no fundo muitas pessoas ainda pensam assim). Ele riu-se.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Impressões III

Resumo da comida: variação de sopa de nudles. É bom, mas muito resumido, é isto. Não admira que seja raro ver chineses gordos. Tempo quente e humido, mais soupas, se eu aqui vivesse desaparecia!

Ontem comi bananas verdadeiras (sem autocolantes) pela primeira vez. Percebi porque nunca as tinha apanhado antes na Europa, pois no segundo dia as bananas que eram fresquinhas quando as comprei (e gordas) ficaram papa. Ainda assim, o melhor sabor de sempre (para quem não se importa de comer papas).

Há sumos naturais por todo o lado, é só escolher entre uma variedade enorme de frutas, não levam água nem gelo. Custam 1.20 euros. Hoje experimentei sumo de dragon fruit, uma maravilha!

Agora quando vamos a restaurantes e os preços são mais de 5 euros por prato ouço as pessoas que estão comigo dizerem "Aqui é caro". É tudo muito relativo, não é?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Impressões II

Assim que abro um mapa na rua, aparece logo alguém a perguntar se preciso de ajuda " ohh do you need help? You look lost". Pois, mapa = lost. Para quem vem directamente da Alemanha, quase que me apetece abraçar as pessoas! Um alemão que conheci aqui dizia-me que também está muito bem impressionado com a cultura, mas que o facto de eu ser simpática (diz ele, que eu não sei nada dessas coisas) funciona como a lei da atração. Esqueci-me de lhe perguntar se essa lei só funciona na China...é que na Alemanha...enfim.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Primeiras impressões

Os chineses (da zona Hong Kong) são bem capazes de ser, em geral, as pessoas mais simpáticas, prestáveis e de bom coração que eu já conheci. Ando meio chocada com tanta amabilidade e boa vontade. Também são capazes de ser dos mais directos e sem jogos (o que também choca). Esta última parte surpreende-me menos porque tenho três amigas chinesas, logo sei o quão directas conseguem ser.

Onde é que no mundo se pede uma informação e a pessoa vai connosco e até nos chama um táxi no meio da rua? Onde é que se recusam gorjetas?

Isto não é bem outro planeta, mas é de certeza outro mundo.

Vê-se pessoas com máscaras de hospital por todo o lado, acho que eles sofreram um trauma com a gripe das aves.

Não aprecio sítios turísticos, logo tenho experimentado restaurantes onde o inglês não abunda e onde sou a única estrangeira. Pode ser arriscado, mas confio no meu bom olho para avaliar onde se come bem. E até agora, a comida não é só barata (menos de metade do preço europeu), é também uma delicia, paraiso mesmo!!!!

Acredito que eles comem (quase) tudo. Temos que (convém) perguntar especificamente o que constituiem os pratos, senão ainda comemos espetada de intestinos (ou seria o estômago?) de porco (tinha bom aspecto, a sério). Quando não se pode perguntar (não falam inglês), há que confiar no aspecto e seja o que Deus quiser!!!





Soda japonesa: parece um bonequinho.